Metalinguagem

por Edson Bueno de Camargoedson.jpg

 

assim se usasse sangue como tinta

 

talvez impressionasse os olhos dos ouvintes

 

e em grande pompa entraria na arena

 

onde outros imortais esperam

 

 

 

mas

 

de que adianta ser sob a sombra do ostracismo

 

por que fazermos tudo isso

 

se isso não é aquilo que esperam?

 

 

 

tu esperas dar poesia aos que não tem pão

 

mas poesia não se come

 

não cobre o corpo para dormires

 

mal serve de alento para as dores

 

e o cansaço do dia

 

 

 

ai daquele que confia sua dor aos outros

 

mal aventurado o que mente

 

o que planta sementes em terrenos estéreis

 

o que busca água nos desertos

 

o que despreza o mar por ser grandioso

 

e busca alento nos regatos das montanhas

 

 

 

o poeta e o louco da aldeia tem o mesmo destino

 

de acreditar que insensatez é verdade

 

de ter poder de criar mundos com palavras

 

melhor o palhaço que faz rir

 

e ri de todos

 

guardando o choro para o escondido das cortinas

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Published in: on January 5, 2007 at 3:05 am  Leave a Comment  

ANTROPOFAGIA

por Darwin Ferraretodarwin.png

A carne esparsa das horas desce na garganta dos melros e sem pressa desenha nas vísceras um por-do-sol. Os ossos das esquinas cerram-se qual zangões de cera, quando os cravos arrancados da lua cativam as línguas das moças.A esfera arcaica dos líquens esmaece os muros e sentencia os doces ares de uma libélula aos claustros dos sonhos. Estes, insanos pedaços de janelas cantam vermelhos lábios de um mar arcaico. As maças enterradas no âmago dos homens, as folhas de sereno de uma aurora de vulvas cativas beijam o horizonte dos cegos.
A carne arrancada dos rubis amarga os ouvidos das ilhas, sem pressa a seda química dos ventos acaricia e chicoteia as pontes dos olhos. Silencia o braço dos cedros, desatam os nós mudos dos rios, como acarás-bandeiras ou setas de gelo que varam o sol.
O espaço dos magmas, os vales errantes dos seios pulsando entre os dedos da noite arrasam os edifícios arcanos do homem. As páginas da titânica Gaia escrevem em sangue e gozo os pulmões e os rins da fome. A imagem dos cometas bailam em fogo, os pulsares estendidos dos figos devorados, o segredo das bocas arredias engolindo pênis, com o carnaval de cactos e gárgulas no olho vazado da razão. Esta mesma carne cortejada em tambores proféticos, carícias outonais desta terra velha e do pão ázimo dos ventos, floresce nas cortinas embebidas no doce suor das putas, o enxofre dos anjos dilatam as veias e as pupilas do sonho.
A carne secretamente devorada pelo tempo…

Published in: on December 14, 2006 at 3:47 pm  Leave a Comment  

ÊXTASE

por Darwin Ferraretodarwin.png

farol de ostras silva no zênite

e os servos antagônicos bebem estrelas

corta-se o mar das certezas

e o leve rumor dos versos mudos

balança as pilastras das sedas importadas

coral de assombrações

digerem cardumes de mentiras

e as flores de amanhã deitam-se entre esquinas

o vento das cavernas livra os cometas incautos

num silêncio de olhares trêmulos

caídos no ocaso das meninas

esquecer as luzes cegas dos mamutes

vazar os olhos amargos das rosas

e embebedar-se no néctar das vulvas

Published in: on December 14, 2006 at 3:45 pm  Leave a Comment