plásticas poéticas

Um bate-papo entre Darwin, Pérsio e Gerber serviu para gerar a proposta desta atividade: construir instalações sobre textos dos autores da ELL.

Recolheram (Darwin e Gerber) textos e enviaram ao artista (Pérsio) para que este criasse as plásticas poéticas.

Porém, parece que ele não conseguia pensar em nada. Fora o poema do Edson – “Para que o dia amanheça”, nada surgia. Inverte-se o processo. Sobre alguns quadros dele, Darwin criou alguns textos poéticos e em alguns casos, tanto o físico como o literário nasceram juntos.

Nos posts abaixo, imagens da experiência.

Published in: on January 5, 2007 at 3:46 am  Comments (17)  

Sarau erótico

por Cecília Aux Bedeschi de Camargocecilia.jpg

 

 

    questões de pele
    esvoaçam
    entre sedas
    e rosas
    sorvete
    derretendo
    em lábios
    conjurando desejos
    palavras em vai-e-vem
    circundam
    amores
    sobre almofadas
    cartas
    esquecidas
    lidas
    destinatários
    incógnitos
    a profanação do sagrado
    ressacralizando bacantes
    vermelhos
    e brancos
    penetrados
    pela brisa da noite
    silente
    discreta
    a janela semi-aberta
    a tudo assiste

31/10/2005

Published in: on June 23, 2006 at 1:23 am  Leave a Comment  

Metades perdidas

por Edson Bueno de Camargoedson.jpg

 

E tudo que tu dizes…
… tudo é impasse
pois tudo está exposto
à liturgia da divisão das partes.

Argila – Dimas Macedo

Metades perdidas que se encontram. Seres andróginos do passado. Seres que foram homens e mulheres cada um a seu tempo, Empédocles, Tirésias e o Orlando de Virgínia Wolf. Estas noites dispersas são pano de fundo para qual conversa? Esta história de olhar para o fundo de nossa alma é um convite para o perigo. Existe mais do que anima e animus dentro deste baú de Pandora. Cartas guardadas e não lidas. Tenho os fantasmas de todos os meus eus que matei para ser o eu que sou agora. Fantasmas são uma cobrança viva de possibilidades perdidas. Como já disse antes, existem portas que depois de abertas não são mais possíveis de se fechar.

Ana C. marcou sua presença, com sua poesia meio doida, meio prosaica, com luzes urbanas e mulheres inquietas. Willian Blake nos ensinando com seus Provérbios do Inferno. Falamos sobre o médico homem que ao escrever sobre a inferioridade da mulher falava de seu medo de sua própria inferioridade. Ninguém é autoridade o bastante para dizer que o ser feminino é inferior. Nem sete mil anos de patriarcado colocaram cabrestos que fossem eficientes. Mulheres como Verônica Franco, puseram em cheque a autoridade do masculino naquilo que mais oprime a mulher, o sexo. Foi cortesã para poder ser poeta, e com o sexo conquistou dinheiro, poder e fama para se libertar das amarras da opressão. Manipulou os desejos do homem, para que o desejo da mulher pudesse prevalecer. Ensinou muitas mulheres a serem fortes naquilo que as condenavam como fracas.

Foi também um poeta, José Marti, que disse que a mulher liberta afronta a autoridade política, e põe medo naqueles que governam pela força. Nada mais poderoso que a mulher liberta. A mãe fecunda e nutridora, senhora da vingança contra os que ferem sua prole, motor da construção do novo.

A poesia afunda suas raízes naquilo que há de feminino em nós. É a voz materna que primeiro reconhecemos. Nutre-se de sangue menstrual; do sangue de gargantas cortadas pela mãe vingadora (oh Kali ma); do lodo parado e fecundo dos brejos e dos charcos de nossa alma. É a árvore do paraíso negada ao macho, nas que a fêmea pôde expropriar. São as velhas anciãs aparando a jovem em seu trabalho de parto. Perséfone dando esperanças aos que morrem. É Amaterasu domando os instintos selvagens do fecundador, para assim produzir a humanidade. É Dionísio enlouquecendo as mulheres presas dentro dos homens que só veneram Apolo.

na tristeza de minha mãe fiz meu primeiro poema

não sei se poesia

mais tarde poesia

Não tenho sangue para dar à terra. Não ser mulher em seu preço. Tenho chafurdado no ódio e no ócio. Estas segundas feiras à noite tem sido um alento, um momento para viver. Eu que tenho Athena por minha senhora, preciso aceitar Afrodite também como Deusa.

Poéticas da Oralidade – Casa da Palavra – 12/06/2006 – E.L.L – Ano 3

Published in: on June 23, 2006 at 1:22 am  Leave a Comment  

Não são de fato loucos ainda

por Edson Bueno de Camargoedson.jpg

 


Por que num universo de loucos, tem alguns de mau comportamento? Por que só loucos se reuniriam de segunda feira a noite, para discutir aspectos do feminino no macho e do masculino na fêmea, Thoreau e Bachelard, Liberdade e devaneio.  Tenho suspeita que os ruidosos, os que querem atenção exclusiva, não são de fato loucos ainda, nesses a insanidade não é mais que um problema comportamental, são crianças altamente egoístas presas em um corpo adulto que reclama atenção. Lamento: aqui não há espaço para lamúrias e discursos feitos, os que estão aqui sabem que tem fome, e esta fome já superou as primeiras crises existenciais da adolescência, muitos já experimentaram remédios muito fortes e sabem que contra a dor própria, não há cura na dor do outro. Aqui a insanidade atingiu níveis de lucidez absoluta.

 

Continuo sem conseguir escrever sobre a questão abordada, não sei se quero olhar para dentro de mim, não sei se quero mergulhar novamente no escuro vazio que abriga o meu ser. Este lugar é muito desconfortável.  Existem constelações de nada, o espaço entre as galáxias,  que me põem medo e prenunciam a dor. A minha loucura não é sutil, tendo colhido o que vaza o tempo todo e com isso tenho escrito poemas, colchas mal costuradas de pesadelo. As vezes sinto que minha anima é a própria mãe primordial, que abarca tudo e todos, que ciumenta de sua criação quer engolir de volta a luz. Deixar-se cessar é muito confortável. Deixar que outros ou outra coisa cuidem de sua dor. Deixar cicatrizar a ferida de Narciso. Estancar este manar permanente  e que me traz só mais dor.

 

Poéticas da Oralidade – Casa da Palavra  – 05/06/2006 – E.L.L  – Ano 3

Published in: on June 23, 2006 at 1:10 am  Leave a Comment  

se arrepiavam quando ela contava. mas ela sorria

por Sarah Helenasarinha.jpg & Tia Fiatiafia.jpg

 

Naquela noite, quando o marido avisou que trabalharia até de manhã, sentiu uma pontada no estômago. Iria para a casa da mãe, não ia querer ficar sozinha, a filha com tão pouco tempo de nascida. Ajeitou a pequena nas cobertas, e desceu a rua.
As poucas casas do caminho tinham as luzes acesas, e o ar transpirava um jeito de noite tranquila. Chegou na casa da mãe a hora de tomar a sopa que ela servia na janta. Sopa de ervilhas.
Questionava a mãe sobre coisas de bebês, ainda tantas dúvidas. A mãe, jovem para ser avó, tinha a barriga imensa de gestação adiantada, e explicava, experiente de tantos filhos.
A noite se adiantava. Lavando os pratos, a mãe fez uma careta. Mas ela não viu, distraída em amamentar a filha. Guardando a panela, fez outra, mas a filha não viu, porque estava de costas.
A mãe procurou nas gavetas o relógio de bolso do pai. Ela conversava com ele como quando ainda era menina. Confortável se sentir apenas filha, e não mãe e esposa também.
Mas as luzes nas casa se apagavam, quando a mãe murmurou algo que ela não entendeu e interrompeu a conversa. “Põe a bebê para dormir, fia.”
O pai soltou uma benção como outro soltaria uma praga, e foi pegar o chapéu para sair, mas ela segurou seu braço. “Não. Não daria tempo.” Sem perceber direito o que fazia, disse que podiam fazer sozinhas, se a mãe a ensinasse. Nessa hora, só então, percebeu como estava baixa a barriga da mãe.
O pai foi cuidar da neta que dormia. Elas diziam que podiam se virar sozinhas, não era difícil entender que ele sobrava.
Naquela hora olhou a mãe e não entendia ela dizer que não daria tempo. Sentia as dores a pouco, e muito calma rezava o terço, enquanto, descalça, andava na cozinha, parando de vez em quando, ora pondo água a ferver, depois passando o café. Conversavam baixo. De pouco em pouco, a mãe ia mais ao banheiro, se demorava mais segurando a borda da pia.
Mas ainda devia faltar tanto tempo, quando a mãe a chamou para irem ao quarto. A memória recente ainda de seu parto dizia que levaria ainda longas horas. A mãe mandou colocar brasas no ferro e passar as mantas para por o bebê. Ferver a tesoura e o barbante.
Quando voltou, a mãe se apoiava no baú de enxoval, acocorada, respirando fundo. Deixou as coisas sobre a cama e surpreendida, ajoelhou-se, vendo seu irmão já quase a coroar.
Havia calma nela, como se soubesse daquele ofício mais que todos. Como se carregasse em si muitas outras mulheres, como se respirasse junto com o ar alguma força muito antiga.
Naquela hora a mãe parecia tão grande, que ela se sentiu enorme por poder assisti-la. Assistir, não ajudar, que das palavras da parteira em seu parto não esquecia, que era a mulher dona do seu acontecer. Seu parto, dele sim, tinha tido medo, sem saber como seria. Lembrava da insegurança, das horas que não passavam, do temor de não conseguir.
Mas ali, as palavras da parteira e o silêncio da mãe a acalmavam. O menino coroava, e ela o amparou na manta fervida. Tinha sido rápido e fácil, perto do seu próprio. Como a experiência ajudava. A mãe, cansada, sentou, as costas apoiadas no baú. A voz lenta ainda, ensinou a medir e cortar o cordão. Falou da placenta, que expulsou logo depois, ensinando a filha coisas que esta não tinha conseguido saber de seu próprio parto.
Avisou o pai que tinha ganho um irmão, e ele, depois de olhar o menino, foi ajudar a mulher a banhar-se, que dos muitos filhos já sabia como a água ajudava a recompor-se.
Mas o menino tinha fome, e ela leite, e abençoando o irmão, amamentou de seu próprio seio, ela ainda se sentindo enorme, mãe de sua própria mãe.

(do relato da Tia Fia, para a E.L.L.)

Published in: on June 6, 2006 at 12:19 am  Leave a Comment  

É mais fácil à mulher localizar o seu masculino.

por Edson Bueno de Camargoedson.jpg

Será meramente por acaso que em primeiro lugar estão aparecendo os animus na oficina? Em nosso momento atual da evolução espiritual e psíquica é mais fácil à mulher localizar o seu masculino interior e exterior do que os homens. Este masculino está em voga: nas senhoras altas executivas; no erótico pelo olhar e não pelo tocar; na pornografia oficial realizada pela mídia e pela publicidade; pela formação de lares cujo o arrimo principal é uma mulher mais velha; no machismo latente que desperta em nossa juventude. Ser homem não é mais fácil ou mais difícil, é mais evidente.

No principio da Era de Aquário o intuitivo era para ser o dominante, a aura feminina sobre a humanidade, no entanto vemos a mulher reduzida a número, a moeda de troca. Mais que a negação do feminino, o ser mulher corre grande perigo em nossas ruas, em suas casas, nos locais de trabalho. A violência contra a mulher passou de triste estatística, para questão de saúde pública, e muitas vezes os violentadores e agressores são próximos e conhecidos, os pais, os maridos, padrastos, patrões e parentes. Na África e Oriente Médio próximo pratica-se ainda a abominação da infibulação, negando a mulher também fisicamente, quando remove-se seu clitóris e parte dos lábios vaginais, nega-se não só o seu prazer, mas também a sua condição orgânica de ser auto-suficiente.

Esta coisa de mulher autônoma. independente é tão recente que ainda temos que conviver com os sete mil anos de repressão que significou as sociedades agrárias patriarcais, foi necessário que acabasse o poder do campo com seu esvaziamento populacional e econômico, e o enchimento das cidades de gente, para que a mulher se visse primeiro como ser humano, rompesse com o padrão objeto propriedade, para agora correr não atrás de sua autonomia e independência, mas também e principalmente do ser dona de seu sentir e do seu prazer. E ainda não é para todas, se pensamos em números absolutos quantos por cento de mulheres são realmente livres. Não falo de rincões da África e da Ásia. Falo de nossas casas e de nossa cidade, dos ricos até os pobres. A opressão contra a mulher talvez seja a coisa mais democrática que existe, vai das classe A à D, de analfabetos até acadêmicos. Penso em minha mãe e nas mulheres de seu tempo, presas a conceitos morais e religiosos, correntes feitas de medos e repressões, do peso de gerações a cobrar-lhes o “bom” comportamento, os cuidados com os filhos, com a casa e a satisfação sexual de seus maridos, sem questionamentos, sem arrependimentos, sem lágrimas à luz do dia. Ainda vai ser erigida uma estátua em ouro maciço de dez metros de altura em frente ao Prédio da Nações Unidas para Margarete Sanger, a mulher que ousou afirmar que o controle de natalidade devia estar nas mão das mulheres, e que a partir seu desejo claro e expresso se desenvolveu a pílula anticoncepcional no ano de 1951, ano marco da libertação em definitivo e sem volta da mulher. Quem sabe um dia todas estarão libertas de todos os seus fardos físicos e psicológicos.

Mas afinal de contas, continuo perguntando o que é de fato feminino e masculino? Se reduzirmos a funções meramente orgânicas, a mulher tem a capacidade de conceber, de gerar a prole. Também podemos discorrer sobre o desenvolvimento do feto, onde originalmente todos somos fêmeas, e a partir do desenvolvimento fetal que esta definição se completa. Existe também a androginia orgânica, dos seres hermafroditas que são escondidos sob um véu de obscuridade. Tirando estes aspectos tudo cai quase sempre em estereótipos. Mesmo os textos guias fornecidos pela Mônica, não dão uma pista esclarecedora. Jung nos fornece uma visão arquetípica de homem e mulher, como se os nossos mitos nos indicassem algum caminho. Nem ai me encontro, talvez deva procurar meu pai espiritual Loque que foi uma égua em parte de sua existência, chegando a conceber um potro; ou procurar o caminho de Tirésias, que em sua vida foi homem e mulher.

Poéticas da Oralidade -Casa da Palavra – 29/05/2006 – E.L.L – Ano 3

Published in: on June 4, 2006 at 2:56 pm  Leave a Comment  

Todas as Fomes.

por Edson Bueno de Camargoedson.jpg

Não há meio de agradar a todos o tempo todo. Isso faz parte da vida, e quanto mais cedo descobrimos nossas limitações menos sofremos. O Sarau de Todas as Fomes veio a que se propôs, servirá como um processo de maturação do grupo das poéticas da oralidade, o cimento e a cola deste novo grupo, que a partir de agora será tão veterano quanto o anterior. Se havia qualquer dificuldade de integração entre os novos e a turma sobrevivente do ano passado, sinto isso totalmente dissipado. Pessoalmente gostei muito deste Sarau e da proporção que atingiu, com erros e acertos naturais, algumas pessoas mais afoitas que as outras (isso se corrige com o exercício permanente de se reunir) novidades e o prato principal, calor humano.

Não esperava muito deste Sarau, não que considerasse meus colegas incapazes, mas principalmente por mim, sou um pessimista natural, um chato neurótico de carteirinha, entrei numa trip que me desconcertou totalmente. Num grupo de pessoas muito capazes e eficientes, corri o risco de me tornar um peso, ações coletivas exigem que desçamos um degrau em nossa vaidade e subamos dois na disciplina. Sou tudo menos disciplinado. Tenho sim uma paciência e uma determinação de um Jó.

Alguns de nós não entenderam que ao libertar a obrigação dos grupos se apresentarem, não perceberam que manter o grupo seria também um ato libertário. Alguns se frustraram e outros regozijaram., o que é plenamente normal. Tudo está em construção o tempo todo, este é o charme e o diferencial da Escola Livre de Literatura. Aprendemos com nossos erros e acertos, mas aprendemos principalmente com nossa busca pelo prazer, e não há tesão maior que estar entre amigos. Senti uma energia muito legal emanada de todos os grupos, a Nayê já havia me alertado para um calor que emanava nas reuniões de segunda-feira. o calor intenso que inundou o salão da Casa da Palavra quando do exercício proposto pela Mônica. Algum formalismo dos convidados, confortáveis em suas cadeiras, mais mesmo um processo de timidez, mas acima de tudo um grande movimento de vanguarda, não perdemos o espírito rebelde. Somos nestes momentos uma resistência aberta a massificação global impostas por nosso primos do norte.

Algumas pessoas não sentiram o calor emanado das pessoas em transe poético, talvez não se sintam convidadas a vir novamente. Outras não compreenderam o que aconteceu de fato, mas curiosas retornarão. Mas algumas delas, e é ai que começa a magia, se sentirão compelidas a freqüentar este grupo tão heterogêneo e ao mesmo tempo tão aguerrido. Meu neto quase dá seus primeiros passos, ensaiados no chão de tábuas lisas. Me diverti muito, fui para casa com uma sensação de bem estar e embora fisicamente cansado, ganhei gás e energia para recarregar as velhas pilhas.
Continuo perguntando o que um grupo de pessoas faz numa noite fria de maio, reunidos em torno da palavra, que estranho fetiche é este.

Sarau de Todas as Fomes – Casa da Palavra – Santo André – 20/05/2006

Published in: on June 4, 2006 at 2:48 pm  Leave a Comment  

TODAS AS FOMES

por Darwin Ferraretodarwin.png

No caos, o sonho se faz presente. Entre tremores de terra e a doce ilusão, as fomes se fizeram presentes. Fome de verdade, de poesia, de liberdade…Fome e gana. Gana de viver melhor. Gana de suplantar as limitações que nos são impostas. Gana de estrangular com as próprias mãos os nossos carrascos. Os poetas, estes seres inomináveis, que subvertem as idéias e as palavras romperam com as correntes. Todo canto de liberdade vem do cárcere. Mas ali, ela era um organismo vivo e real. Pulsando em mil megatons. Vibrando com um milhão de vozes. O caos e os abismos nos chamam. Para ouvir The Doors e dançar. Para simplesmente levitar. Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor, já dizia Cartola. E esta dor, poetas, mortais e loucos, é a falta de tesão, de paixão. Ou excesso. Excesso de paixão também causa dor. E a dor gerada por este excesso gera poesia.

Façamos como os Surrealistas. Mudar o mundo e mudar a vida. Metamorfosear as entranhas e nossos sonhos. Lentamente revirar as entranhas do nosso viver. Dancemos ao som de Noel. Dancemos ao som de qualquer canção que nos enleve a alma.

Não acredite em deuses que não sabem dançar. Não acredite em deuses que não sejam poetas. Lancemos nossos dados no infinito e construímos nosso amanhã. Este esperado amanhã que cante o novo mundo. Este esperado amanhã onde o tesão e o carinho caminhem juntos, onde o amor não seja vendido a preços módicos nas esquinas. Este esperado amanhã que revire as nossas vidas e nos transforme. Que a nossa estranha dor se espalhe pelos cantos, que penetre nas mentes dos incautos. Que espatifem as mentes dos poderosos.

Messias, patrões, chefes supremos. Nada esperemos de nenhum. Vibremos a flauta de nossas vértebras no ritmo das estrelas. Bailemos com as ondas deste mar de indignidade, de vontade de mudança.

Façamos do sonho e da ilusão nossas bandeiras. O mundo real nos tolhe. O mundo real nos castra. Nos aprisiona. Mas é neste mundo cruel e insano em que vivemos. Cabe à nós transforma-lo. Cabe à nós poeta-lo.

Assim, no limiar deste tempo que insiste em aprisionar nossos versos, sejamos terroristas. Sejamos loucos a inverter ocasos. Bailemos nas estrelas e cantemos nossas alegrias, nossas dores. À  todos vocês, meu canto. À todos vocês, o sonho reconstruído em versos. Versos vivos de uma poesia vibrante. De uma poesia com alma, gana e sonho. Da poesia que vibre em nossos ossos. Que seja um blues, um lamento, um choro. Que seja um samba, um rock, um xote. Que nos faça rir insanamente. Que seja somente poesia.

Aos poetas do mundo. Vastos são os desertos, minha alma. Mas mais vastos sejam nossos versos…

E nesta vastidão semeie o sonho….

Published in: on June 2, 2006 at 12:00 pm  Leave a Comment  

O caos. ou Hoje a verdade não foi trabalhar porque não tinha ônibus.

por Edson Bueno de Camargoedson.jpg

“É preciso que haja alguma coisa alimentando o meu povo; uma vontade uma certeza uma qualquer esperança. É preciso que alguma coisa atraia a vida ou tudo será posto de lado e na procura da vida

a morte virá na frente e abrirá caminhos. É preciso que haja algum respeito, ao menos um esboço ou a dignidade humana se afirmará a machadadas.”

Poema do Aviso Final Torquato Neto

caos

do Gr. kháos- s. m., confusão de todos os elementos, antes de se formar o mundo;
grande desordem; babel; balbúrdia.

Língua Portuguesa On-Line

Um pastor de Bíblia em riste, preconiza o fim dos tempos, deve ser a senha para o grande acontecimento catastrófico. Ônibus ardem em chamas nas periferias da cidade. (Hoje a verdade não foi trabalhar porque não tinha ônibus.) Agências bancárias e postos policiais metralhados. O comércio fecha suas portas. Mães choram seus filhos que se encontram nas prisões. Mães aterrorizadas buscam seus filhos nas escolas. Uma onda de boatos paralelos percorre as ruas e a net. O Estado e o estado de direito se afrouxam. A mídia faz o seu grande circo. Arautos da morte e profetas do apocalipse vociferam na televisão: é a impunidade; pena de morte; redução da idade penal; penas mais rígidas. A construção de formação total do homem: a Paidéia; escolas fundamentais mais honestas; salários dignos e dignidade aos professores; reforma da sociedade para a dignificação do humano, o fim de um conceito de sociedade que vive da rapina de uns sobre outros; ficam para outro dia.

O caos deu o ar de sua graça nos dias que se passam, e isso não é nem uma pequena parcela de seu tamanho; tem coisas que passam diante de nossos olhos todo dia e a gente nem vê. O caos como a morte, anda sobre nossos passos e riem os dois impiedosamente de nossas caretices, cretinices e hipocrisias. O caos é o namorado mais velho da entropia. O caos odeia a afasia e o conformismo. O caos liberta forças muito poderosas do subconsciente, e quando liberto tresloucado pelas ruas, praças e avenidas, tomba homens e carros como se fossem de papel, quebra vidraças como se fosse tijolo, como se a função do tijolo fosse destruir vidraças e não construir casas. O caos é um vento mais forte que o furação, e quando bater vai carregar as instituições junto com ele, é o próprio huracan o espírito da vingança. O caos feito palavra é poesia, mas solto por ai é uma coisa que não tem nome. O caos não é anarquia porque não tem qualquer responsabilidade. O caos é um cão indolente que depois de soltar da coleira não quer mais voltar.

O caos quer sempre ir de volta para casa. (e nos levar junto.)

 

Poéticas da Oralidade – Casa da Palavra ( todos ausentes contra nossas vontades) – 15/05/2006 – E.L.L – Ano 3

Published in: on May 31, 2006 at 1:22 pm  Leave a Comment  

Esqueçamos Apolo e deitemos aos pés de Dionísio

por Edson Bueno de Camargoedson.jpg

 

“Que eu te devolva a fome do meu primeiro grito."
Hilda Hilst

“Mas quanto assim ganhou a vida do poeta!
Amanhã, depois, anos depois, serão escritos os versos de que é esta a origem. "
Konstantinos Kaváfis

 

A leitura do texto de Thoreau (Walden) não redeu o que poderia. Ficou no ar a sensação de inacabado, ou terminado a força. A profundidade dos conteúdos não rompeu a superficialidade da verdade que paira sobre às águas. Acredito que a divisão de trabalhos não está ainda bem azeitada e regulada, os núcleos, a leitura, acabaram se misturando.
As apresentações dos rascunhos me agradou e ao mesmo tempo me agoniou. Os grupos se afundaram nas fomes, afloraram textos, gritos, passos de dança. Algumas surpresas interessantes. Há um excesso de texto que prenuncia a necessidade de expressar fomes incontidas, há a coragem daqueles que em grande dificuldade enfrentam seus temores e se atiram na arena dos leões, há a irresistível teatralização de cenas, há no ar uma sombra de dúvidas, há flores lançadas ao ar. Ai avaliemos todos e tudos, o texto lido cansa o público, textos longos não se seguram a não ser que decorados, por que? Não se cansará o púbico com o texto longo, lido ou decorado? Não sei, pessoalmente não acredito que a fruição poética possa se antecipar. Não há ensaio que crie a catarse necessária. Para que os deuses estejam presentes esqueçamos Apolo e deitemos aos pés de Dionísio.

Nisto tudo há algo que me incomoda: existe de fato necessidade que os saraus sejam apresentações espetaculares e sensacionais? A existência dos núcleos não contribuirá para o engessamento do desenrolar das coisas? Em todos os sarais há o elemento anárquico da improvisação (não podemos esquecer que os saraus não estavam previstos e surgiram quase que espontaneamente como reflexo de um trabalho que realizávamos em Mauá), da desobediência, da ausência de técnica, de um vencer a timidez. Se tudo for ensaiado, regulado, roteirizado, sobra pouco espaço ao acaso, ao companheirismo, a catalisação e catarse do público, que passa de co-autor a mero assistente.

Não que o trabalho dos núcleos não seja interessante, reli poemas, conheci dois bairros de São Paulo, participei da Trama do Morro Vermelho, distribuí livros e travei contato com pessoas interessantíssimas, não é difícil que nestas andanças surjam novos amigos e amizades, até mesmo parcerias. Encontrei pessoas que acreditam ainda e isto foi uma massagem em meu ego, ando cansado de cinismos, principalmente dos meus.

Este ano tudo tem me dado uma impressão de pressa, no ano passado as coisas correram mais tranqüilas e relaxadas, num certo ar de improviso, o ambiente era mais criativo. As turmas trocavam e permutavam, pessoas se agregaram no percurso. Havia um aprofundamento nos temas, as discussões fluíam e as apresentações do saraus resistiram a toda e qualquer tentativa de organização.

Poéticas da Oralidade – Casa da Palavra – 24/04/2006 –

E.L.L – Ano 3

Published in: on May 8, 2006 at 11:34 pm  Leave a Comment