ÊXTASE

por Darwin Ferraretodarwin.png

farol de ostras silva no zênite

e os servos antagônicos bebem estrelas

corta-se o mar das certezas

e o leve rumor dos versos mudos

balança as pilastras das sedas importadas

coral de assombrações

digerem cardumes de mentiras

e as flores de amanhã deitam-se entre esquinas

o vento das cavernas livra os cometas incautos

num silêncio de olhares trêmulos

caídos no ocaso das meninas

esquecer as luzes cegas dos mamutes

vazar os olhos amargos das rosas

e embebedar-se no néctar das vulvas

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Published in: on December 14, 2006 at 3:45 pm  Leave a Comment  

PercepTendo

por Elly Guevaraelly.jpg

Na madrugada

Todos os sonhos já se extraviaram.

A luta intensa com meus ideais cansa.

Então

Deito. E esqueço.

De mim. De nós. De todo mundo.

Desperto ainda sem perceber

Enter.jpg

ENTER

Ativando a percepção.

Luz invade a casa por entre frestas.

Será um domingo de Sol?

Published in: on December 12, 2006 at 12:16 am  Leave a Comment  

“O Mapa do Abismo e Outros Poemas”

por Edson Bueno de Camargoedson.jpg

 

Lançamento do livro “o Mapa do Abismo e Outros Poemas” de Edson Bueno de Camargo na Casa da Palavra ( Praça do Carmo, 171 – Centro – santo andré – SP) no dia 29/07/2006 – às 19h30.


livroedson.JPGBueno de Camargo, Edson – O Mapa do Abismo e Outros Poemas – Edições Tigre Azul/ FAC Mauá – Mauá – SP – 2006.

Obra financiada pelo Fundo de Apoio à Cultura do Município de Mauá, o que propiciou sua publicação, é um livro de poemas colocados de forma a revelar o caminho para o abismo que todos carregamos dentro de si, mesmo que inadvertidamente. Continua a trajetória iniciada com a publicação do livro de edição de autor “Poemas do Século Passado 1982 -2000” em 2002. “O Mapa do Abismo e Outros Poemas”, é uma coletânea de poemas produzidos na virada do século XX para o XXI. Dadas ás dificuldades naturais de publicação este livro sai publicado com o hiato de alguns anos, uma vez que é seqüência imediata da proposta do livro anterior, no entanto como a temporalidade não funciona no poema como na, “aspas”, realidade, esta diferença temporal não é um empecilho para a leitura da obra. Vivemos dos vestígios do século passado, uma vez que boa parte de nossas vidas foi vivida no outro século, e os recém-nascidos neste século ainda não tem idade para suplantar nossas idéias e ações.

Published in: on July 19, 2006 at 10:16 pm  Leave a Comment  

FRAGMENTOS I

por Darwin Ferraretodarwin.png
Era uma  manhã de pés descalços e ouvidos moucos. Era uma manhã de luzes incertas vagando pelas avenidas. Um resto de noite calado na boca, o pesar dos sapatos comprimindo o assoalho de madeira, o som dos automóveis passando, a verborragia quieta dos passantes. No caminhar apressado um quê de dúvida entre os postes e árvores velhas traçando linhas imaginárias. Os fios, estes em quase retas, sustentam pombos e pardais gritantes onde nada pode ficar. Era uma manhã de sol esmaecido e nuvens. O latido dos cães ecoando no silêncio dos pensamentos, o perfume de flores incertas bailando entre as cigarras dormentes. O caminhar quieto, engolindo palavras que seriam logo esquecidas. O riso contido entre quimeras, o alarido dos bêbados encostados em balcões, o vai e vem de formigas inquietas no silêncio das calçadas. O quedar-se em pequenas poças de ilusão onde o tempo se afunda e dança sem música. O leve rumor da brisa tagarelando entre as ramagens, o estalido das folhas e pensamentos secos pisados fortuitamente, num lance de dados arremessados nas esquinas do esquecimento. Era uma manhã de inquietas chuvas desmanchando as certezas. Na sonolência desbotada dos gatos pisando entre vácuos. O lusco-fusco dos incubos entrelaçados nos bueiros, clamando às ratazanas um pouco de luz e sonho, quando a morte é tão somente a única certeza. As antenas eriçadas buscando sinais de vida inteligente, mendigos arrastando carcaças mal arrumadas, o pisar leve das colegiais despreocupadas com as aulas e vertendo desejos nos olhares. O passar do tempo ecoando no vagar dos olhares, o zumbido dos alarmes vestindo o silêncio insano dos passantes num canto inexplicável aos verdugos amedrontados. Era uma manhã de luares finitos, esvaindo-se em sangue nos becos e favelas. O clamor dos mortos ensandecidos, o grito surdo e desesperado das mães enegrecidas vertendo dores translúcidas nas calçadas. As paredes revelando espinhos, o asfalto espelhando almas esquecidas, o resto de luz beirando as sombras avermelhadas dos ganidos vadios. Era uma manhã como todas as outras.

Published in: on July 19, 2006 at 10:15 pm  Comments (4)  

voz do vento

por Sarah Helenasarinha.jpg

Era uma mulher que gostava de comédias românticas e bombons de chocolate com recheio de biscuit. O que, de fato, a tornava muito parecida com milhares de outras mulheres. Talvez o que a apavorasse e fizesse morder o lábio de modo frequente eram as outras coisas, aquelas que poderiam considera-la diferente. Talvez, manias que não cabiam bem a uma garota, certos desejos que não tinha a menor vergonha de sentir, e talvez até mesmo uma cicatriz ou duas no coração e nos braços, causadas principalmente por seus próprios atos. Talvez fosse o frio que enregelava seus dedos, talvez fosse influência de todos os filmes a que assistia, mas o fato é que não importava o que fizesse, aquelas noites de domingo se tornavam cada vez mais insuportáveis. Nunca haveria nada de bom para assistir na tv em um domingo a noite, de forma que o caminho que se repetia todas as vezes era aquele que ia até a locadora, onde cada fita acenava com algum carinho ou traço de desespero, algo que pudesse fazer esquecer a estupidez de sua vida, algo que deixasse seu vazio espiritual um pouco menor ou mais difuso.
Vazio espiritual. Seus dedos estavam gelados e ela tinha dificuldade de segurar as chaves na mão, eram objetos tão pequenos, parecia que as pessoas sentiam algum prazer mórbido em fazer objetos tão pequenos ter importância vital em suas vidas, como se aquilo fosse uma prova de alguma coisa, uma prova de que essas coisas pequenas não são desimportantes, mas ela se sentia assim, pequena e desimportante, uma coisa solitária como uma boneca de porcelana quebrada e abandonada em algum canto escuro e sombrio por uma menina que não havia sabido brincar. Sempre havia sido assim, não era, um brinquedo nas mãos de alguém que não sabia o que devia fazer com ela, sempre se entregando, vez depois de vez, e sempre se quebrando em mais pedaços, virando poeira, pó, detrito, nada. Uma vez um rapaz havia dito que nada no mundo iria separa-los, mas ele havia ido embora porque sentira medo do que ela escondia em seu coração, tinha medo daquilo que ela tragava para dentro de seus pulmões e de sua vida, ela se sentia abandonada e era inverno, embora as roseiras dos jardins teimassem em acreditar que a primavera já havia chegado, o que aumentava consideravelmente seu desespero e a sensação de que estava fora de lugar, de que o mundo todo podia chegar a algum lugar mas ela não, como se estivesse esperando um ônibus as cinco horas da manhã depois que todos já foram embora e seu ônibus não passasse. Ela respirava fundo sentindo o vento gelado, olhando para aquela porta tão conhecida que ia abrir, para ver as mesmas coisas de sempre, a mesma tv, o mesmo sofá, o mesmo cobertor, a mesma sensação de ser uma boneca de porcelana e nada mais, a mesma sensação de estar quebrada por dentro, suspirou, tristemente, segurando as fitas e abrindo a porta, olhos baixos, desiguais.
Entrou. Sentou com os pés sobre o estofado, mordendo o lábio como tantas vezes, olhando para a tela cinzenta desligada a sua frente. Olhou para o teto e para a lâmpada fluorescente, imaginando porque economizava energia elétrica se sua própria vida estava sendo desperdiçada. Acendeu um cigarro, apagou o cigarro, olhou pela janela onde pouca coisa se via na neblina. Ia começar a chover, e o vento sussurrava coisas para ela, mas ela não queria ouvir, porque a voz do vento a fazia sentir ainda mais sozinha, embora soubesse que estava sempre com mais alguém lá, mas não havia contato, nunca. Sua vida era um armário escuro, uma boneca abandonada mas que não se tem coragem de jogar fora, esperando naquele ponto de ônibus, morrendo de medo, mas sem ter coragem de procurar outro lugar onde esperar, sem coragem de voltar sozinha e a pé para casa as cinco da manhã.

Era só uma mulher que gostava de comédias românticas e bombons de chocolate, e não via nada de errado em seus desejos e em suas manias, e pagava o preço por isso, embora só desejasse que alguém abrisse a porta do armário e colasse os pedaços de porcelana, tão frios, sempre, para sempre marcados, mas o cetim do vestido estava manchado, e o olhar da boneca estava perdido, a cola ficaria para sempre como uma lágrima e ninguém gosta de bonecas tristes.
Ela olhou o telefone que nunca tocaria, olhou a tv desligada a sua frente e se lembrou do tempo em que ao menos ainda conseguia chorar. Mas agora nem mesmo isso era possível, ela já não sentia nada, a tristeza era uma máscara colada mas não atingia dentro dela, nada a atingia agora, porque a tristeza ainda faz com que se crie alguma coisa, mas ali, naquele armário escuro, nem mesmo criar era permitido. Ela respirou fundo vestindo a imensa camisa de algodão para dormir, suas mãos estavam geladas e ela as aqueceu em uma luva abandonada ali por algum dos meninos que não soube brincar com ela, se escondeu sob os cobertores, o ônibus jamais chegaria e ela morreria naquele lugar, nada além disso, nada que pudesse fazer, nem mesmo um suspiro por lembrarem de sua morte, não haveria nada só restaria o esquecimento, ela mordeu o lábio para não chorar, e não existia nenhum mundo além dos cobertores, além da parede cinzenta que a oprimia naquele instante.

Foi mais ou menos então que o telefone tocou, e ela abriu os olhos.

Published in: on June 27, 2006 at 8:21 am  Leave a Comment  

SAPATOS VERMELHOS

por Darwin Ferraretodarwin.png

Série 100 palavras

(Uma série de mini-contos, com apenas 100 palavras, incluindo o título.)

Ganhou-os dele. Vermelhos, lindos. Nunca os usara. Achava-os vulgares. “Sou mulher séria”. Como tivera coragem? Naquele dia notou nos rotineiros uma mancha. Furiosa, pegou os vermelhos. Não combinava com a roupa. Trocou-a: Um vestido vermelho, com decote generoso. Saiu para trabalhar. O porteiro seguiu com os olhos, cobiçando. Na empresa, começou a digitar aquela carta. O chefe chama. Ela entra, curva-se mostrando os seios. Ele fica excitado, ela percebe. Puxa-o pela gravata, dando-lhe um beijo. Ele levanta o vestido, tira a calcinha, coloca-a na mesa. Tira a calça e a penetra. Ela morde os lábios para não gritar…

Published in: on June 27, 2006 at 8:19 am  Leave a Comment  

fadas feitas com lápis de cor

por Sarah Helenasarinha.jpg

A luz que entrava pela janela era suave e doce e a fazia pensar em velhos musicais e filmes dos anos cinqüenta, uma luz assim, dourada, invernal, com aquele cipreste fazendo sombra e os reflexos brincando na parede do quarto. Se deitou com suavidade sobre as almofadas, procurando com a mão brincar com um reflexo que brilhava teimoso sobre o chão, entre papel e lápis de cor, um desenho interminado, um cigarro pela metade, aquela paz modorrenta das tardes de inverno, a sensação de que o mundo acabou e só restam a gente e um ou dois cômodos onde nós estamos. Lembrava de apenas algumas tardes atrás, deitada ali, brincando com os reflexos, exatamente como hoje, mas havia mais do que aquele perfume no ar, havia uma presença, outra mão tentando agarrar a sombra da folha da árvore no meio da luz.
Mas a lembrança era passado, e o passado já não importava mais, nem o futuro, não havia preocupação, nem dor, nem sonho, um bocejo, um trago no cigarro, ajeitar as almofadas, dormir. Ficar entre o sonho e o acordado, sentindo enquanto o gato se aproximava cheirando seu corpo, deitando-se sobre ela, adormecendo lentamente, abrir um olho para sorrir para o amigo, seu peludo amigo em quatro patas, porque só os gatos são capazes de compreender a vida humana, eles existem para serem como anjos, e ela rezava para morrer e nascer gato, miando por ai. Seria doce, como aquela luz, caminhar em telhados e ver o mundo através de olhos verde amarelados de pupilas verticais, outro bocejo, o gato lambe a pata e se aconchega, ela se aconchega, aquele prazer doce e morno, olhar a luz através da janela, o cansaço fluindo de si e voltando ao mundo, como se algo sugasse tudo de ruim nela e levasse, deixando em troca alguma sensação de completude, uma vaga esperança em outro mundo, uma estrela guardada em algum lugar, um hino, talvez, olhava as fadas feitas com lápis de cor, um imenso campo cheio de macieiras, a sombra do sol entre as flores brancas da maçã, nada dessas frutas dos trópicos, cheias de cores e sensualidades, maçãs, lentas, calmas, como aquelas tardes, brancas flores de inverno, como luz, como o perfume dele que ficava pelos lençóis, velhos baralhos, desenhos de conchas, mar.
Suspirou engolindo o cheiro de Índia que o incenso dava ao quarto, canela, sândalo e raposas, os olhos semicerrados, esperando o movimento do gato, o gato olha, no fundo dos olhos, mia baixo, ela murmura, alguma coisa, algo bem doce e manso, bem gato, olha o entalhe apoiado contra a parede, o lobo, o caçador, e ri, todo caçador tem uma caverna para voltar, esqueça a fúria e a força em casa, deixe-se levar, seja sempre água, rio, contos de fadas, seja manso e macio e resolverá os problemas do mundo.
Vira de lado. Mansa, calma, canções. Vestidos indianos bordados, cheiro de mel, sorrisos. Sua mão toca de leve nos lápis de cor. Como um brinquedo, algo sutil que é para ser seguro com mãos aveludadas, risca de leve, esboça, brinca, desenha. Flores nos cabelos, vestida de flores, olhos amendoados, sorriso. Larga os lápis, apoia a cabeça na almofada desenhada de motivos náuticos. Sono. Olha pela janela as árvores, os reflexos, o céu é cor de rosa, ela ri baixinho, hortelã, se espreguiça meticulosamente, lembrando velhos contos e poemas sobre sono, gatos, calor. Cansada de divagar, dorme. E, de mansinho, sonha.

Published in: on June 24, 2006 at 11:00 pm  Leave a Comment  

SERÁ?

por Darwin Ferraretodarwin.png

Série 100 palavras

(Uma série de mini-contos, com apenas 100 palavras, incluindo o título.)

Era calado, tímido. Não gostava de farra, não contava vantagens. No trabalho perguntavam: “Será?” Tranqüilo, não ligava. Quando saia com o pessoal, bebia quietamente. Ouvia aos causos com atenção. Aos comentários como: “olha aquela …” dava um sorriso. Várias vezes apresentaram-lhe mulheres. Conversava um pouco, só isto. “Não pode ser. È mesmo. Desprezar esta…” Na festa de fim de ano ela surge. Loira, linda, corpo escultural. A rodearam. “Tudo bem?” Ela responde, ninguém entendeu. Ele se aproxima. Fala na língua estranha. Começam a conversar. Olham estupefatos. Ele a abraça. Saem juntos, agarrados. Estava feito: bonita, inteligente, filha do dono…

Published in: on June 24, 2006 at 11:00 pm  Leave a Comment  

Dürer

por Cecília Aux Bedeschi de Camargocecilia.jpg

 

     


    per feito

    a linha cruza o papel

    desfila detalhes

    circunda raízes

    a voz de mestre

    clama

    reconhecimento

    em silêncio

    goivas se submetem

    matrizes se transformam

    o veio da madeira

    entrega-se

    às mãos sedutoras

    que percorrem ávidas

    caminhos conhecidos

    a rotina não basta

    precisa mais

    busca incessante

    joga à terra

    mais que seu sêmen

    mais que um filho

    sua obra

    exorta o homem

    exortando a Deus

    matriz

    de todas as coisas

04/11/2005

Published in: on June 23, 2006 at 1:24 am  Leave a Comment  

O que acontecerá com os relógios parados?

por Sarah Helenasarinha.jpg

O vento sopra forte através da janela, e as folhas do caderno sobre a cama são viradas por ele, como se folheasse apressado um diário proibido. Sentada no computador, a moça observa o mundo dormindo a volta dela, gato, caderno e manhã, tudo adormecido. Só quem está acordado é o vento, e talvez, apenas talvez, ela. Uma garrafa vazia está a seu lado relembrando a noite anterior, e ela ainda guarda de lembrança o gosto doce da bebida. O sino de vento cantarola suavemente, metais contra metais, e ela para o que está digitando para observar o sino. Como se sentia semelhante a um sino, às vezes. Ficava em um lugar, a vista de todos, e ficava ali, parada, abandonada e esquecida, até que algum vento viesse faze-la tocar. Até que alguém pudesse ver sua beleza cansada de sino, prestes a retinir a nota máxima e mínima ao mesmo tempo, o som da criação, a propagação de um som novo que daria início a um novo universo.
Divagava assim quando o gato bocejou na cama. Sobre o beiral da janela, o sino, metal e madeira, continuava a tocar. Velas aguardando serem acesas, camisolas de seda aguardando no guarda roupa. Folhas nas árvores esperando o sol surgir entre o cinza pálido do céu. Des-pon-tar diria algum poeta antigo. Voltou-se para o computador e escreveu ainda mais um pouco, enquanto sua mente divagava e se afastava do rumo planejado do texto que escrevia. Olhou em volta procurando vestígios, e ali havia vestígios de tantas coisas, pegou nas mãos o relógio parado, até ontem ele funcionava, fechou-o entre os dedos em uma tristeza cinzenta e pálida, como o céu. O que aconteceria com os relógios parados, teriam eles almas que fossem para algum céu, como poderiam receber o justo pagamento por seu serviço desesperado, lutando para ensinar os homens que o tempo pode rolar muito mais devagar do que o homem faz com que ele rode. Inventar a roda foi o primeiro erro, ou o primeiro erro foi permitir que alguém usasse a roda em proveito próprio? Olhou o relógio mais uma vez, depositou-o no móvel de madeira escura, e continuou a escrever em um suspiro. Não conseguia se concentrar no trabalho. Agora era um ruído de fundo.
Os caminhões passavam com o correr dos minutos, mas ela não os via, apenas escutava o barulho distante de rodas sobre o asfalto, imaginando para onde iriam todos os caminhões, frases de pára-choque e nomes de filhos, adesivos de Nossa Senhora e o Coração de Jesus, o Sagrado Coração, havia uma força imensa no Sagrado Coração, os caminhoneiros se protegiam dos acidentes e guiavam suas almas pelo Sagrado Coração, palavras que enchem a boca, palavras fortes, Sagrado, Coração, sangue espinhos fogo e lágrimas.
Coçou os olhos e foi até a cozinha procurar café. O café era um mistério adorado por ela. A frase de Tereza D’Ávila martelava sua cabeça enquanto fazia o café. “Quando as panelas da cozinha forem tão sagradas quanto os vasos dos altares”… Sagrado de novo. Como poderia ser uma pessoa de fé? Não sabia direito o que era fé. Sabia o que era som, o que era imagem, o que fazia um culto fisicamente. Conhecia as ciências. Mas fé era uma palavra simples demais para poder encerrar dentro de si tanta complexidade. O Sagrado Coração voltou à cabeça. Havia um música que falava do Sagrado Coração, mas o cantor morreu antes de cantar, embora a música fizesse ela desejar chorar. Olhou para a Nossa Senhora ao lado da pia, pintada em um prato de louça, pendurada na parede. Assustou-se com o que viu e até então nunca tinha percebido. O Sagrado Coração. Ali estava novamente o Sagrado Coração.

A imagem a olhava piedosa, e fazia quase desejar sumir dali para escapar daquele olhar. Esquecida do café, ficou olhando sem poder fugir, pensando naquela imagem que sempre havia estado ali embora estivesse invisível para seus olhos. Observou quantas coisas passam desapercebidas porque não lembramos de vê-las. Olhou o bule de café, amassado por um ou dois tombos. Mas dessa vez, realmente olhou para ele, aquilo que lhe escapava, sua forma, sua cor, suas marcas, os riscos do tempo. Não tinha coragem de tocar no bule, ou no copo de vidro, que agora olhava, que era atravessado pela luz, o vidro que é areia quente e é gelado, os desenhos no corpo do vidro, como uma arquitetura, o mármore da pia através de seu fundo, de onde havia vindo aquele mármore? que estranhos caminhos teria feito para chegar a ser aquela pia, escura e esverdeada, o mármore muito escuro pintadinho de branco, fosco pelo tempo, como se de repente percebesse a idade de todas as coisas ali, percebesse que aquela cozinha era como uma prisão de tempo, onde mesmo as coisas novas mostravam-se como de outras épocas, havia uma palavra para isso, apenas não se lembrava qual era, mas exceto pela palavra era como se lembrasse de tudo, e seus olhos novamente correram pela imagem do Sagrado Coração, ela carregava um lírio na mão, e a outra mão estava perto do coração, era um mudra silenciosamente eternizado naquela mão, havia rosas pálidas em torno de um coração em chamas, rosas tem espinhos, espinhos apertando o Sagrado Coração, como uma dor sagrada. Respirou fundo, segurando um soluçar que não tinha cabimento.
Queria sair dali, sair daquele transe, mas tudo que olhava contava uma história e ela não podia deixar de ouvir, e olhava muitas coisas ao mesmo tempo. Uma tontura tomou seus olhos e se apoiou na cadeira de madeira vermelha. Olhou para a madeira e viu a árvore, o fruto, viu os pássaros e os insetos, e respirou o cheiro do verniz e as curvas da cadeira, e correu, correu para se jogar na cama e fechar os olhos, e as últimas imagens que viu eram de campos de algodão plantado novo e velhas tecelãs. Respirou densa, mergulhando no pesado sono, ouvindo o ruído incessante do cooler do micro computador.
No dia seguinte, passou em uma igreja, pediu a benção ao padre e foi tatuar o Sagrado Coração.

Published in: on June 23, 2006 at 1:23 am  Leave a Comment